AMOR COM...E SEM PALAVRAS

sexta-feira, 4 de março de 2011

PRESÍDIO




Nem todo o corpo é carne … Não, nem todo,

Que dizer do pescoço, às vezes mármore,

às vezes linho, lago, tronco de árvore,

nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco …?


E o ventre, inconsistente como o lodo? …

E o morno gradeamento dos teus braços?

Não, meu amor … Nem todo o corpo é carne:

é também água, terra, vento, fogo …


É sobretudo sombra à despedida;

onda de pedra em cada reencontro;

no parque da memória o fugidio



vulto da Primavera em pleno Outono …

Nem só de carne é feito este presídio,

pois no teu corpo existe o mundo todo!



David Mourão-Ferreira

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