AMOR COM...E SEM PALAVRAS

quarta-feira, 6 de abril de 2011

POEMA IV



Te recordo como eras no último Outono.
Eras a boina cinza e o coração em calma.
Em teus olhos pelejavam as chamas do crepúsculo.
E as folhas caiam na água de tua alma.
Apegada a meus braços como uma trepadeira,
as folhas recolhiam tua voz lenta e em calma.
Figueira de estupor em que minha sede ardia.
Doce jacinto azul torcido sobre minha alma.
Sinto viajar teus olhos e é distante o Outono:
boina cinza, voz de pássaro e coração de casa
fazia onde emigravam meus profundos anseios
e caiam meus beijos alegres como brasas.
Céu desde um navio.
Campo desde os cerros.
Tua recordação é de luz, de fumaça,
de tanque em calma!
Mais além de teus olhos ardiam os crepúsculos.
Folhas secas de Outono giravam em tua alma.


Pablo Neruda
(Vinte poemas de amor 
e uma canção desesperada)

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