AMOR COM...E SEM PALAVRAS

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Escrito na areia [In Sand geschrieben]

Ah, que tristeza é saber
Que o Belo, o encantador
São só sopro, só tremor,
Que o precioso, o feitiço,
Duram apenas instantes.
Nuvem, flor, bola de sabão,
Foguete e riso infantil,
Mulher que se vê ao espelho,
E muitas mais outras coisas,
Que, mal reveladas, se vão,
Nao duram mais que um momento,
São só perfume, só brisa.
E o que perdura, o eterno,
Não nos é tão caro à alma:
A jóia de fogo frio
E os brilhantes lingotes;
Até as próprias estrelas, incontáveis,
Permanecem distantes, alheias,
Não são como nós, mortais.
Não chegam ao fundo da alma.
Não, o Belo mais íntimo,
E o mais precioso,
Querido, parece destinado
À perdição, sempre prestes a morrer:
As notas da música que mal nascem
Logo fogem, logo expiram,
São só brisa, torrente, perseguição,
Derrubadas pela dor,
Pois é por pouco tempo
Que se deixam apanhar, enfeitiçar;
Ainda há pouco tocadas
As notas desaparecem, esvaziam-se.
O nosso coração entrega-se
Ao que é volátil e fluido.
Entrega-se à vida,
E não ao sólido, ao concreto.
A permanência fatiga,
Rocha, estrela, pedraria,
Levam-nos constantemente a mudar,
Almas de vento, bolas de sabão,
Sem tempo, sem duração,
Qual orvalho na folha da rosa,
Qual namoro de uma ave,
Qual morte da nuvenzinha,
Brilho da neve, arco-íris,
Borboleta a esvoaçar,
Qual sonido de risada,
Que, enquanto vão passando,
Mal nos tocam, não nos prendem,
Nem magoam. Amamos
O que se nos assemelha, e compreendemos
O que o vento escreve na areia.

Hermann Hesse (1877-1962)




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